segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Hoje chorei


Hoje chorei.
Peço desculpas ao leitor que já chorou tantas vezes e nunca pensou que tal aguaceira [ou leve pingar] seria motivo para registro. Mas peço que continue aqui. As palavras não nascem à toa. Nem fazem chorar por vãs ventanias.

Hoje chorei. Hoje chorei por um livro, por causa de. É fácil chorar lendo um livro de 700 páginas sobre genocídio. É fácil. É digno. É jornalístico. É literário. É quase divino.
Hoje chorei. Chorei não pela bela missão de se tentar e querer entender as matanças deste e do século passado. Não chorei pelas belas reportagens. Não chorei junto. Chorei só. Chorei debaixo de muitas águas, que pudessem se confundir e esconder de mim mesma as minhas águas-gotas.
Hoje chorei. Chorei com intervalos. Hoje chorei pela dor de um povo que não conheço. Chorei pelo sangue de pessoas que hoje devem estar vivendo a conta-gotas, vivendo tentando matar a pauladas um passado seu. Mas que, por causa de um bando de jornalistas e de mais um bando de diplomatas e historiógrafos, este passado virou o passado de todos. A Ocidente e a Oriente.

Hoje chorei. Chorei por tanto querer ouvir os relatos das vítimas, sentir a ameaça de um bombardeio de gás. A ameaça de um líder psicótico. Chorei por não ser uma jornalista capacitada.
Hoje chorei por não saber o que é ser alvo de um genocídio.
Chorei. Não pela profissão. Não pela beleza. Chorei pela feiura do mundo. Pela minha feiura. Por querer, de alguma forma, me redimir da ignorância. De minha inação.

Hoje chorei.
Chorei por ser Ocidental.
Chorei por não saber se, caso fosse Oriental, se as coisas mudariam.
Chorei por não saber.
Hoje chorei.
E, esse susto profundo, levarei pra sempre.

Espero poder encontrar este povo. Ou qualquer outro povo que me arranque aos tapas de minha ignorância e que suje de lama a minha profissão. Não preciso do Jornalismo-máquina. Eu preciso é de Jornalismo-de-vida. Preciso contar ao resto do mundo [e a mim mesma] que os olhos de um corpo triturado ainda brilham.
Preciso cravar em algum lugar a dor deste povo. Não por mim, nem pelos leitores. Mas por eles. Desculpe-me a Academia, mas sim, eu escreverei para as fontes. Elas que me entregarão suas histórias com mãos ensanguentadas, barrentas e cheias de calo.

Eu respeito quem não chora.
Mas hoje, eu chorei.
E sinto que estou crescendo.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Quem avisa amigo é?


Jurista da Cruz Vermelha, Gabriel Valladres,  critica irresponsabilidade de beligerantes ao não avisar sobre bombardeio em tempo hábil para retirar civis de regiões-alvo 

- - Conflitos armados e direitos humanos - -


Jurista do CICV, Gabriel Valladares, em coletiva
Entre montanhas, barracas e destroços de munição e tanques de guerra, um garoto, aos berros em cima de uma bicicleta, anuncia: “Atenção, atenção! Aviso importante para os habitantes de Kanibo e para os refugiados que moram aqui: todos devem ir para o alto da colina, a guerra entre o Iraque e a América vai começar!”

Era 2003, estava-se em um campo de refugiados curdos no Iraque. O barulho inconfundível, desses que descola a alma do corpo, interrompeu aquela terra profanada pelos horrores do genocídio: o sobrevoo de um avião norte-americano a lançar papéis que chicoteavam até chegar em terra firme. O que dizia a América: “É o fim da injustiça, do infortúnio e da pobreza. Nós,americanos, somos seus melhores amigos e irmãos. Os que estão contra nós são nossos inimigos. Faremos deste país um paraíso.”

A cena faz parte do filme “Tartarugas podem voar”, do cineasta iraniano Bahman Ghobadi e traz à tona uma das regras estabelecidas pelo Direito Internacional Humanitário (DIH), o Direito que rege o cenário bélico em relação aos direitos individuais: toda vez que um Estado ou uma organização irá bombardear, via aérea, locais com considerável concentração de civis, deve-se avisar antes, para se ter tempo de recuar as pessoas.
 
Mas o jurista do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, Gabriel Valladares, revela: “muitas vezes não dá tempo de retirar todo mundo”. Segundo Valladares, são proibidos, pelo DIH, aqueles ataques cuja finalidade seja aterrorizar a população civil e os que provavelmente causarão mortos, feridos ou danos a bens civis.

No início deste ano, os bombardeios aéreos na Líbia pela Otan, aliança militar do Ocidente, foram um dos pontos de grande discussão entre os países-membro da ONU. As Nações Unidas autorizaram o bombardeio aéreo por meio da resolução 1973, legalizando o uso da força para proteger os civis líbios do conflito entre rebeldes e forças do ditador Muammar Gaddafi. A polêmica na ação militar na região é que os aviões da Otan estariam bombardeando a população e prédios civis durante o combate às forças de Gaddafi . África do Sul e Rússia foram os mais ferrenhos em suas críticas.


O primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, disse na época que a resolução 1973 recordava as “convocações às cruzadas”. “É evidente que [a resolução] autoriza a fazer tudo a todo o mundo, independente da ação contra um Estado soberano. Isto me faz pensar nas convocações às cruzadas da época da Idade Média, quando as pessoas eram chamadas para ir a algum lugar e libertá-lo.” No último dia 21, a porta-voz da Otan, Oana Lungescu, arrematou: “O que nós continuamos a fazer é reforçar o mandato da ONU que nós temos, que é proteger civis”.

Em sinal de descontentamento, a África do Sul não participou de conferência Paris no início deste ano. “Estamos descontentes com a forma como a resolução 1973 da ONU (Organização das Nações Unidas) foi interpretada para executar bombardeios aéreos na Líbia”, declarou Zuma em uma visita de Estado à Noruega. ”Se era necessário recorrer à ação militar, deveria ter sido para ajudar os civis, vítimas do conflito”, disse ele. “Mas ao invés de protegê-los, os bombardearam, enquanto esta cobertura permitia ao outro grupo (os rebeldes) seguir avançando”.


Quem é quem- A separação de civis e combatentes é um dos grandes desafios das agências humanitárias e da Organização das Nações Unidas em suas ações de resolução de conflitos, explica a professora doutora em Políticas Internacionais e Resoluções de Conflito e professora de Relações Internacionais na Universidade de Coimbra, Daniela Nascimento. No período pós-Guerra Fria, emergiu um novo tipo de cenário bélico que os especialistas chamam de “Novas guerras”, explica Nascimento. A dificuldade de distinção entre civis e não-civis é própria destas guerras que não acontecem mais em campos isolados, mas sim em meio à população.

Na Guerra do Iraque (2003-2006), aproximadamente 109 mil pessoas morreram, dentre elas, 63% eram civis. No primeiro semestre do ano passado, as mortes de civis na Guerra do Afeganistão aumentaram 25% em relação a 2009, o correspondente a 1.271 pessoas. As 176 crianças mortas e as 389 feridas também neste período mostraram um aumento de 55%. No conflito entre insurgentes, Otan e forças do ex-ditador Muammar Gaddafi, foram 2.200 civis mortos nos últimos três meses, informou a ONU no último dia 31.



A Carta e o Peacemaking: uma relação às avessas nas práticas de resolução de conflito das Nações Unidas

- - Relações Internacionais - -


“Nós, os povos das Nações Unidas, resolvidos a preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra...”. É o que diz as primeiras linhas do preâmbulo da Carta das Nações Unidas datada do dia 26 de junho de 1945 na cidade de São Francisco, Estados Unidos, que criou a Organização das Nações Unidas (ONU) e estabeleceu suas dinâmicas de ação no cenário internacional. 

A missão quase apostólica da maior organização internacional do mundo soa como um desabafo após o desgaste e a mutilação das duas Grandes Guerras.


Com a polarização do mundo em apóstolos dos EUA ou da URSS, a comunidade internacional volta-se somente para os conflitos centrais envolvendo as duas potências - deixa-se de lado, aqui, os chamados conflitos periféricos. Quando cai este pano central, estes conflitos periféricos inundados de violação de direitos humanos, massacre de minorias étinicas e religiosas, mandonismos de ditadores e falência de Estados eclodem no palco dos conflitos armados. E é aqui que o avesso das Nações Unidas, infelizmente, acaba por se instaurar:  ao mesmo tempo que a ONU se preocupa em evitar a guerra, ela mostra-se muitas vezes omissa emoperar antes que um conflito estoure, mesmo tendo conhecimento pleno de sua potencial iminência.


Neste cenário Pós-Guerra Frica, surgirão o que acadêmicos chamam de “novas guerras”. Elas serão mais cruéis e mortais do que as ditas guerras tradicionais, uma vez que não há campos de batalhas definidos – a guerra acontece dentro das cidades, do campo, no meio da sociedade. Nas novas guerras, não se consegue distinguir beligerantes de civis, o que causará mortes em massa de pessoas inocentes e externas aos conflitos.

Não será mais o Estado o principal agente financiador, mas sim os setores clandestinos, os mercados negros da sociedade. No caso das guerras em África, o contrabando de diamantes em Serra Leoa, o petróleo e o marfim são alguns dos recursos das economias das novas guerras que serão delineadas principalmente pelas desavenças étnicas e religiosas dentro de um país.

Aqui também achamos uma diferença entre novas guerras e guerras tradicionais: as primeiras ocorrerão dentro de um dado território, de um país, de uma cidade, já as tradicionais aconteciam entre países, entre continentes.

As novas guerras são todas (ou a maioria) resultantes do que a Academia chamará de Estados falhados ou colapsados. O Estado falhado é aquele que é constantemente colocado em risco por facções e rebeldes. O Estado colapsado seria o próximo passo do falhado, ou seja, é aquele Estado que entrou em guerra com as facções opositoras e a guerra civil tornou-se tão volumosa e cruel que toda a sociedade entrou em colapso. As condições mínimas de sobrevivência e de continuidade da sociedade são afetadas drasticamente.

Diante disso, a Organização das Nações Unidas tem um novo impasse em mãos: como lidar com esse cenário bélico nunca antes visto pela comunidade internacional. Como separar beligerantes de civis? Como instalar um regime democrático dentro de um país pós-conflito étnico-religioso, no qual o poder não pode ser fruto da vontade da maioria, tendo em vista as problemáticas sociais internas? Como promover a paz, a segurança mundial? E, voltando às linhas iniciais deste texto: como evitar o flagelo da guerra tenha ela a face que tiver?

Prioridade- O que preocupa mais a Organização é a questão da segurança internacional, por isso que o Conselho de Segurança é o seu mais importante e poderoso órgão e todos os seus julgamentos de intervenção levam em conta, em primeiro lugar, a ameaça ou não da segurança internacional. É nela, por exemplo, que intervenções militares e sanções econômicas a países com programas nucleares encontram espaço, como acontece hoje com a Síria sob o regime de Bashar Alasaad.

Ao criar climas de tensão civil e desestabilizar perigosas regiões como o Oriente Médio e o Norte da África, essas novas guerras, consequentemente, ameaçavam a segurança nacional amplamente defendida a unhas  dentes pela ONU.

Por isso, devia-se agir. Agiu-se, age-se. Mas não da maneira correta, não da maneira como dizem as letras da Carta de São Francisco. Vamos a isso.

Resolvendo conflitos- Os processos de resolução de conflitos são divididos em três blocos: peacemaking, peacekeeping e peacebuilding. O peacemaking (PM) é caracterizado por ações para se evitar a eclosão de um conflito.

O peacekeeping (PK) é aquele que age em meio aos conflitos. Os “peacekeepers” são os conhecidos soldados de capacetes azuis, ou somente capacetes azuis. Sem o uso da força, eles vão para o lugar do conflito para criar os chamados “bolsões de paz” e separar os beligerantes. Muitos capacetes azuis acabam tendo que usar a força devido à insalubridade do ambiente bélico. O peacebuilding (PB) irá reconstruir o Estado e a sociedade ano pós-conflito. [Pode-se falar em PB quando se fala da intervenção dos Estados Unidos no Afeganistão pós-regime Talibã, pós- 11 de setembro].

Os conflitos civis ou as crises humanitárias podem ser resolvidos por esses mecanismos pacíficos ou pelo chamado “peaceenforcement” que estabeleceria aplicações de sanções e/ou embargos ou intervenções armadas dependendo da gravidade do caso.

A pergunta que se faz diante desse leque de ações é a seguinte: por que as Nações Unidas, que diz em sua Carta querer fundamentalmente evitar o flagelo da guerra, age muito mais no pós-conflito e durante o conflito do que no período pré-conflito? Por que a ONU espera o conflito eclodir para agir?

Não se pode deixar de citar os sucessos de peacemaking da organização como em Moçambique, Camboja, El Salvador e Namíbia, regiões nas quais a efetividade da prevenção se deu antes que ações dos peacekeepers fossem necessárias. Mas os sucessos acabam sendo ofuscados pela omissão da ONU que acabou, por muitas vezes, dando espaço para sangrentas guerras civis.

Como é o caso da independência de Angola: era sabido da comunidade internacional que o país tinha grande propensão para o início de uma guerra civil entre as duas facções rebeldes – MPLA e Unita, mas nada se fez, não se interviu o se fez relatórios de ações de peacemaking. Somente depois que a guerra civil em Angola eclodiu que as Nações Unidas agiram em peacekeeping e em ações de peacebuilding que, segundo alguns especialistas, também não adiantaram muito. Muitos veem o fim da guerra civil em Angola não uma conquista da ONU, mas sim uma conseqüência da morte do líder da Unita.

David Malone, um dos mais entusiastas das ações da ONU admitiu em seu livro From Reaction to Conflict Prevention, Opportunities for the UN System que as ações preventivas ficaram muito aquém do pretendido e não passou de retórica. Além de Somália, os fracassos do peacemaking da ONU podem ser vistos no Burundi, Libéria, Serra Leoa, ex-Jugoslávia, Somália e Sudão.



A importância das ações no pré-conflito foi colocada pelo ex-secretário-geral da ONU, Boutros- Ghali. “Esta deveria alargar o seu domínio de intervenção para além dos conflitos existentes, passando também a tratar de conflitos emergentes.
Esta ideia foi enfaticamente repetida no Relatório Brahimi e mais tarde no Relatório de Kofi Annan sobre a prevenção de conflitos”, informa Carlos Martins Branco do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI) em seu artigo A ONU e o processo de resolução de conflitos: potencialidades e limitações.

Vê-se então a relação às avessas entre o que se escreve e o que se faz dentro da ONU. Claro que seria muito tolo culpar somente as Nações Unidas pelo fracasso das ações de peacekeeping e dizer que por fracassarem esse modelo de resolução de conflito todos os outros fracassam consequentemente.

É preocupante a discrepância entre o que se propõe no preâmbulo da Carta de São Francisco e como realmente se age em meio a conflitos.

A letra tornou-se morta. E espera-se que agora, num cenário mais solidificado e com um grande arcabouço de fracassos, a ONU tente caminhos mais fortes e mais sólidos para atenuar aquilo que ela mesma, há 66 anos, chamou de flagelo.









terça-feira, 11 de outubro de 2011

Mais mulheres na guerra

A participação mulheres na cobertura de conflitos armados praticamente se igualou à dos homens na avaliação do correspondente do jornal Folha de S. Paulo no Oriente Médio, Samy Adghirni. “O número é praticamente igual, quase fifty-fifty”, afirma. Com os gêneros equilibrados nas devidas proporções, o jornalista considera que o cenário da guerra é o mesmo para ambos os sexos, mas pondera: em algumas situações a mulher fica mais vulnerável.


Falta de proteção especial, violações massivas dos Direitos Humanos, situações insalubres de sobrevivência, dificuldade na distinção de civis e militares, governos dissimulados e rebeldes hostis. São com esses e outros milhares de remendos que as notícias de uma guerra são costuradas por jornalistas sejam homens ou mulheres. Em meio a essa costura, o correspondente do jornal Folha de S. Paulo confessa: “Elas [mulheres] são muito mais corajosas do que nós [homens].” E a coragem toma nome, idade e jornal: Roode, 23 anos, freelancer do jornal britânico The Telegraph. “Uma inglesinha com uma cara de boba, mas muito esperta. Ela ia na raça, sozinha, sem respaldo do jornal. Guerreira, mesmo.”

Mas, e os próximos passos dentro de um conflito? Menstruação, cólicas, preparo físico para escalar muros e árvores, entrevistar homens mulçumanos, abusos sexuais e seqüestros. A situação de uma jornalista dentro de um país tradicional mulçumano, por exemplo, é mais delicada, conta Samy. “Claro que é mais difícil. Na Líbia, por exemplo, um país super conservador, o homem não pode chegar muito perto da mulher. Conversar, pior ainda.”

Dentro das fronteiras líbias, a repórter fotográfica, Lynsey Addario, do jornal norte-americano The New York Times foi violentada sexualmente por militares pró-Khadafi durante os dois dias de detenção com mais quatro jornalistas.

O sequestro aconteceu próximo à cidade de Ajdabiya. Enquanto era espancada, os militares agarravam seus seios e riam quando Lynsey começava a chorar. “Todo o meu corpo foi tocado por cada líbio que chegava perto de nós”, disse a fotógrafa. Segundo inquérito do Internacional News Safety Institute (INSI), mais de 55% das mulheres jornalistas entrevistas confirmaram ataques e intimidações físicas durante cobertura de conflitos.

A correspondente da agência AFP, Beatriz Lecumberri, conta que em Basra, cidade xiita ao sul do Iraque, ela era vista como uma prostituta pelos homens iraquianos porque “eles nunca tinham visto uma mulher viajando com outro homem que não fosse seu marido”. Sobre preparo físico, Lecumberri diz que a mulher se adapta mais facilmente ao ambiente hostil da guerra e consegue lidar melhor com as questões físicas que podem ser um enorme obstáculo nesse tipo de cobertura.



segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O silêncio de Tamambuá

-- conto --

A cidade de Tamambuá, no interior de um estado brasileiro sem importância, não tinha muito dessas coisas de política, de futuro, de ideologias. Nada disso andava por ali, via-se apenas o barro, os passos lentos e as carroças que vez ou outra teimavam em quebrar o silêncio pacato da cidadezinha a leste da grande capital.


De dentro da casa humilde de dona Maria Eulália, no alto do morro dos Tristões, ouvia-se sempre uma cantiga velha dos tempos da República. A mesma cantoria todas as noites. Uma voz suave, quase que um sussurro ritmado: “Espera, filho, espera um pouco mais. Todos os lares hão de ser felizes, todos os berços hão de ser iguais”.

Maria Eulália era filha do falecido Nadir Alcides, dono de uma antiga sapataria nos fundos de Tamambuá. Os pés que por ali passavam tinham que dividir o espaço com caixotes lotados de panfletos avermelhados, de imagens coladas nas paredes de senhores de boinas, de barba crescida e olhando para o céu. Seu Nadir morreu pela foice, é o que dizem. Ninguém sabe ao certo o que isso significa, apenas repetem como um mantra curioso e um pouco engraçado. Andando pela cidade, o sapateiro sempre cantarolava a cantiga que hoje ocupa as noites de Maria Eulália.

Um dia alguém começou a distribuir os panfletos abandonados na velha sapataria de seu Nadir Alcídes. Via-se panfletos colados nos postes, nas paredes, nos vitrais de igreja. Até o Papa foi chamado para a tal revolução. Os tamabuaenses nem sabiam ler direito aquelas palavras todas embaralhadas, ajuntadas e carimbadas no papel avermelhado, gostavam era mesmo da cantoria que Maria Eulália fazia. Agora a cantiga não era só restrita à noite, a cada vez que a moça via um panfleto colado pela cidade, desatava a cantar. Toda a cidade ia se alegrando com a música, com os olhos e com as expressões da donazinha. “Espera, filho, espera um pouco mais. Todos os lares hão de ser felizes, todos os berços hão de ser iguais”.

Todos eram esse filho. Esse filho paciente esperando por algo que ninguém sabia ao certo o que era. Um dia alguém lançou a dúvida: será que essa cantoria toda é o anúncio de que o que esperamos já chegou?

Daí ninguém mais segurou Tamambuá. Todas as noites, em todas as casas, a cantiga de seu Nadir Alcídes, agora pertencente a sua filha, era entoada como um hino. O povo aprendeu a ler e começou a entender os panfletos, as imagens dos donos da dita “revolução”. Concordaram com tudo. Todos se alegravam, cantavam e sorriam. A vida era boa, um dizia.

Mas um dia, Maria Eulália sumiu. Nunca mais se viu nem se ouviu sua cantoria. A sua casa foi fechada por pedaços grossos de madeira e o telhado destruído. Os panfletos sumiram e a sapataria de seu pai foi invadida. Ninguém sabe de nada.

“Aquela cantoria talvez fosse do demônio”, dizia uns. “Ah, não. Maria Eulália é que foi esperta. Achou um rapagão e foi-se embora pra luta brava da cidade”, dizia a lavadeira Hortência. A tal revolução sumiu junto com a moça. Aquelas bonitas palavras se foram e as pessoas andavam cada vez mais longe uma das outras nas calçadas com medo de um sumiço semelhante, de um silêncio eterno, de algo tenebroso. O prefeito de Tamambuá baixou o decreto: “Fica-se proibido canta qualquer coisa na cidade de Tamambuá. Somente com a autorização prévia das autoridades locais.” E assim foi. O silêncio estava, então, imposto.

Certo dia, o jovem carteiro estava a andar pelas bandas do morro dos Tristões quando ouviu uma cantoria. Bem leve, bem fina, como chuva de inverno. Quis fugir, denunciar, sair correndo. Mas nada pode fazer, ficou ali parado, gelado. Nisso olhou para o chão e seus pés estavam cobertos de panfletos vermelhos, azuis, brancos, verdes, alaranjados. Maria Eulália estava de pé a sua frente. “Ô, filho, vais ficar parado ai com toda essa papelada na mão?”, disse a moça já envelhecida. “Olha que temos que distribuir isso tudo. Trate de me ajudar”.

O jovem carteiro num pulo catou os papeis, ajeitou o sapato e foi pela cidade distribuindo aquelas letras confusas e cheias de promessa de um novo mundo menos silencioso. Ele não sabia o que tudo aquilo iria trazer, mas Maria Eulália sabia, ah se sabia.

A moça, já nem tão moça assim, ia distribuindo aos homens de bem uma simples mercadoria sob a promessa de que deveriam esperar pela felicidade dos lares e pela igualdade dos berços.

Nascia o Sol em Tamambuá. E isso bastava.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Os descompassos de Nelson

“Na política, até a raiva é combinada”, disse o ex-ministro Nelson Jobim (PMDB) em entrevista ao programa Roda Viva na última segunda (1º). Talvez essa seja a frase que melhor explique todas as suas outras sentenças “infelizes” (segundo o líder do PT na Câmara, o deputado Cândido Vacarezza).É, de frase em frase, Jobim vai nos ensinando e/ou nos mostrando algo: na política, nada se faz e/ou se fala por acaso. Avancemos.


Frases infelizes- O leitor já deve saber de cor as frases ditas por Jobim, mas aqui vão elas para não deixar de cumprir com o dever quase religioso de contextualização, com o qual o jornalista deve estar casado. “Os idiotas perderam a modéstia” (junho em homenagem a FHC. Deu-se a entender que se tratava da atual gestão)// “Nas últimas eleições, votei em Serra”(Em entrevista ao programa “Poder e Política” da TV Folha e UOL)// “É muita trapalhada, a Ideli (Salvatti, ministra de Relações Institucionais) é muito fraquinha e a Gleisi (Hoffmann, ministra chefe da Casa Civil) nem sequer conhece Brasília”( em entrevista à revista Piauí deste mês)

Portfólio- Não me parece que o ex-ministro da Defesa nem sequer pensou no que estava falando aos quatro, cinco, sete ventos sobre seu voto, sobre as ministras de Dilma e sobre os “jornalistas idiotas”. Coloquemos aqui rapidamente o portfólio de Jobim:
-1987-1995: dois mandatos consecutivos como deputado federal pelo PMDB-RS. Foi também líder do partido na Assembleia Nacional Constituinte em 1988.
-1995-1997: ministro da Justiça no governo de Fernando Henrique Cardoso.
-Abril de 1997: deixa o cargo para ser nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal no governo de FHC. 
-março de 2001: vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral e, em junho, assume a presidência do órgão.
-2003: presidente do Superior Tribunal Federal já na administração Lula
-2005: presidente do Conselho Nacional de Justiça
-2007: assume o Ministério da Defesa em 2007, da qual se desligou em 04 de agosto de 2011.

Jobim se dá bem como o militares, isso já é mais que comprovado e repassado. Ele conseguiu convencer os comandantes da necessidade de se criar uma Comissão da Verdade para investigar o caso dos documentos secretos da época da Ditadura Militar. Como se sabe, os militares fogem deste período como o diabo da cruz, ninguém fala nem se intromete muito menos querem uma Comissão para remexer o passado tenebroso dos senhores de farda. Enfim, a Comissão da Verdade era vista como impossível. Jobim conseguiu dobrar os militares. E eis ai a Comissão. Em relação aos caças, Jobim leu, releu as milhares de páginas das propostas dos caças suecos, franceses e norte-americanos. A sua decisão foi pelos franceses. A de Luiz Inácio Lula da Silva foi pelos.... é não foi. Lula deixou para sua sucessora. E até agora nada. Mas Jobim deu seu pitaco, o qual foi bem acatado pelo presidente da época.

Na atual gestão de Dilma Rousseff, Jobim perdeu muito espaço de decisão, principalmente pelo corte de R$ 50 bilhões feito pela presidente. A pasta da Defesa foi uma das que mais sofreram com os cortes. Jobim viu seu orçamento diminuído em R$ 4,024 bilhões – 38% do total permitido para o ministério, de R$ 10,29 bilhões. O ex-ministro estava insatisfeito, triste, melancólico e todos os sentimentos que a falta de dinheiro pode causar.

Voltemos à frase inicial de Jobim: “Na política, até a raiva é combinada”. Um político de seu cacife, não fala sem querer para grandes veículos de mídia, em homenagens a ex-presidentes e a revistas intelectuais. Como bem lembrou ele mesmo no programa Roda Viva, “política e emoção não combinam. Se você vê um político emotivo ou é porque ele acabou de entrar ou porque é outra coisa”.

Jobim não acabou de entrar na política, ele está lá há bons 23 anos. Se a vontade era a de permanecer no cargo, ele errou sim o passo. Mas se a intenção era outra, ai o descompasso não foi tão ‘descompassado’.

Pela manhã, Nelson Jobim saiu para caminhar aos arredores de seu prédio em Brasília (DF). Talvez esteja pensando no projeto de seu livro sobre filosofia que disse estar querendo escrever. A postura de Jobim continua tranquila, serena e sábia. Ele mesmo disse: “Nada me tira do sério”.

O resto é especulação.

Agora é com Amorim. Aguardemos os próximos capítulos.

(+) LEIA TAMBÉM:: Matéria publicada no portal do DIÁRIO DO COMÉRCIO sobre a entrevista do ex-ministro no programa Roda Vida da TV Cultura na última segunda-feira: http://www.dcomercio.com.br/index.php/politica/sub-menu-politica/70641-sair-depende-de-dilma-diz-jobim

quarta-feira, 27 de julho de 2011

A vida não cabe




A vida não cabe.
Não cabe no retrato, no rosto, no sapato, no cabelo bem planejado.



Ah, meu caro amigo, se ao menos ela se encaixasse-
como a naftalina no fundo de um armário coberto de passado.
Mas não, o passo é curto, as mãos já tremem, o espelho também já sangra.



Não, amigo, a vida não cabe. Ela, surpreendentemente, transborda.
Passa pelos dedos, pelos olhos, pelo pensamento.
Não adianta.
O corpo sofre, a alma se perde pelo caminho. Pensamos que perdemos o compasso, o tempo, o ponteiro.

Mas não. Tudo isso é o descompasso da vida- ela que não se molda.
É, caro amigo, a vida tem dessas coisas: ela transborda.